UEG avalia qualidade da água e valor ambiental do Rio Araguaia

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) ao longo do Rio Araguaia indica que moradores de municípios ribeirinhos reconhecem a importância ambiental do rio e estão dispostos a contribuir financeiramente para sua conservação.
O estudo estimou uma Disposição a Pagar (DAP) média de R$ 40,41 por pessoa ao mês, o que poderia representar mais de R$ 64 milhões por ano em recursos destinados a ações de conservação ambiental na região.
Rio Araguaia
A pesquisa também avaliou a situação ambiental do Rio Araguaia em 18 municípios ribeirinhos de Goiás e Tocantins, combinando entrevistas com moradores, análises da qualidade da água e levantamento das condições socioeconômicas locais.
O estudo foi coordenado pela professora Joana D’arc Bardella Castro, vinculada aos Programas de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado (PPG Renac) e Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (PPG Teccer), em parceria com a professora Giuliana Muniz Vila Verde, (PPGs Teccer e Ciências Moleculares) e com o professor Mario Cesar Gomes de Castro, do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade (PPGAS).
Os resultados foram organizados e sintetizados em um livro, cujo lançamento está previsto para este semestre.
Em Goiás, o levantamento foi realizado em Aragarças, Aruanã, Baliza, Britânia, Montes Claros de Goiás, Nova Crixás, Santa Rita do Araguaia e São Miguel do Araguaia. No Tocantins, foram incluídos Araguacema, Araguanã, Araguatins, Caseara, Couto de Magalhães, Esperantina, Lagoa da Confusão, Pau-d’Arco, Sandolândia e Xambioá.
Disposição a pagar
A DAP média foi maior entre mulheres (R$ 42,98) do que entre homens (R$ 37,84). Considerando o conjunto dos moradores das cidades pesquisadas, a arrecadação potencial poderia chegar a R$ 5,3 milhões por mês – ou mais de R$ 64 milhões por ano – para investimentos em conservação ambiental.
Mesmo ao considerar apenas a população economicamente ativa, o valor estimado alcança R$ 10,5 milhões por ano, sem incluir a contribuição de turistas. A maioria dos entrevistados indicou disposição para pagar entre R$ 10 e R$ 20 mensais.
A inclusão de uma taxa média para visitantes poderia elevar a arrecadação mensal para mais de R$ 7,9 milhões.
Qualidade da água
A equipe, formada por docentes e estudantes, coletou amostras em 34 pontos do Araguaia, analisadas a partir de critérios físico-químicos. Os dados revelam um cenário heterogêneo: enquanto alguns trechos permanecem bem preservados, outros apresentam níveis preocupantes de poluição, especialmente em áreas com forte pressão turística, crescimento urbano acelerado e agricultura intensiva.
Os pontos mais críticos foram identificados em Lagoa da Confusão (TO), com altos níveis de substâncias associadas ao uso de fertilizantes, esgoto doméstico e detergentes; Sandolândia (TO), com elevada concentração de metais e acúmulo de matéria orgânica; Aruanã (GO), sob intensa pressão turística; e Aragarças (GO) e Britânia (GO), com índices elevados de detergentes, indicativos de despejo de esgoto e impactos do turismo.
Esses contaminantes favorecem a proliferação de algas tóxicas, reduzem o oxigênio dissolvido na água e comprometem a fauna aquática, a vegetação e o uso da água pela população.
Em contraste, São Miguel do Araguaia (GO) apresentou níveis muito baixos ou ausência de poluentes na maioria dos parâmetros analisados. Outros pontos isolados ao longo do rio também demonstraram boas condições ambientais, associadas à menor interferência humana.
A degradação da qualidade da água afeta diretamente as comunidades ribeirinhas, que dependem do rio para consumo, preparo de alimentos, pesca, criação de animais e irrigação de pequenas lavouras. A perda da qualidade da água amplia riscos à saúde e à segurança alimentar, comprometendo os modos de vida de comunidades tradicionais.
O estudo alerta ainda para a expansão da produção de soja e da agropecuária em municípios que não contam com infraestrutura adequada de saneamento e tratamento de esgoto. Lagoa da Confusão, que registrou rápido crescimento populacional nos últimos anos, é apontada como exemplo de como o desenvolvimento sem planejamento pode intensificar problemas ambientais e sociais.
Estudo interdisciplinar
Além dos resultados ambientais e socioeconômicos, o projeto teve impacto direto na formação acadêmica. Participaram três docentes e 13 discentes da UEG, distribuídos entre iniciação científica, graduação, mestrado e doutorado, com atuação em áreas como Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Agrárias, Ciências Humanas, Ciências da Saúde e Ciências Biológicas.
O projeto resultou em oito trabalhos de iniciação científica concluídos, três dissertações de mestrado defendidas e uma pesquisa de doutorado em andamento. As atividades envolveram levantamento socioeconômico dos municípios banhados pelo Araguaia, estudos sobre a distribuição das águas no Cerrado, serviços ecossistêmicos e análises laboratoriais da qualidade da água, realizadas no Laboratório de Pesquisa em Bioprodutos e Síntese (PLBios|UEG) e no Núcleo de Pesquisa em Economia (Nepe|UEG).
Segundo a coordenadora do PLBios, a professora e farmacêutica Giuliana Vila Verde, projetos como esse contribuem para a formação de profissionais com visão interdisciplinar e para a conscientização da sociedade, “especialmente nas cidades banhadas pelo rio Araguaia, que terão ciência do impacto de suas ações sobre os recursos naturais nos aspectos econômicos, na saúde humana, animal e ambiental”.
A professora Joana D’arc Castro destaca que a integração entre diferentes áreas do conhecimento é uma das principais características da UEG.
“Quando vamos discutir um projeto desse formato, precisamos conhecer o pensamento do outro e o trabalho dele para poder escrever a metodologia”, explica. Em campo, essa troca se intensifica. “O trabalho de campo se torna muito rico, porque um economista, por exemplo, vai aprender como chegar à beira da água para coletar uma amostra”, afirma, ressaltando que os pesquisadores têm a oportunidade de conhecer métodos fora de sua área de formação. “Tivemos a oportunidade de fazer isso, e é muito rico ver como funciona a análise da qualidade de águas”, conclui.

Alerta e lançamento de livro
Os dados indicam que o Rio Araguaia ainda conserva trechos de alta qualidade ambiental, mas enfrenta pressões crescentes. O estudo reforça a urgência de políticas públicas voltadas ao saneamento, ao controle da poluição e à conciliação entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
Como desdobramento da pesquisa, será lançado ainda no primeiro semestre deste ano o livro Rio Araguaia: da nascente à foz – aspectos ambientais, valoração e análise de águas, que reúne os principais achados do projeto e amplia o acesso público ao conhecimento produzido.



