Ensino e trabalho são chaves para mudança

Para detento, recomeço veio por meio da marcenaria, ofício que aprendeu enquanto cumpre pena (Foto: SSP)

Aos 39 anos, o marceneiro João* parece correr contra o tempo. É o primeiro a chegar à marcenaria onde trabalha, em Goiânia, e raramente sai antes das 19 horas. Trabalha de segunda a sexta-feira e só descansa aos finais de semana porque, por enquanto, o movimento ainda é pequeno.

“Por mim, eu trabalharia todos os dias. Não tenho mais tempo a perder. Já perdi tempo demais na minha vida”, afirma.

Quando João diz que perdeu tempo demais, refere-se aos seis anos que passou preso no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia. Condenado a 13 anos de pena, ele já cumpriu parte dela e está no regime semiaberto desde abril de 2025, monitorado por tornozeleira eletrônica. Ainda restam sete anos para o cumprimento total.

O recomeço veio por meio do ofício que aprendeu na Seção Industrial do complexo: a marcenaria. Mas a atividade não foi o único legado que ele levou do sistema prisional. O maior aprendizado, segundo o próprio João, foi a disciplina.

“Eu era muito ignorante, explosivo. Não dava ouvidos a ninguém. Esse foi até um dos motivos de eu ter cometido o crime. Na cadeia aprendi a ter disciplina, a ser responsável com as obrigações. É ter ordem, disciplina e respeito. Isso eu devo ao sistema prisional. Por isso me considero um novo ser humano”, revela.

Na Seção Industrial, João chegou a tomar conta da marcenaria. Era responsável por gerenciar os projetos e até ensinar outros detentos. O projeto executivo das salas do diretor-geral e do diretor-adjunto da instituição saiu das mãos dele.

“Foi o serviço de maior responsabilidade que já fiz na vida. E ficou muito bom.”

Além do aperfeiçoamento profissional, João também estudou atrás das grades. Quando entrou no sistema, tinha apenas a 5ª série do Ensino Fundamental. Hoje já concluiu o Ensino Médio.

“Minha vida mudou bastante na prisão. Hoje tenho objetivos. Quero crescer profissionalmente e também como pessoa, como ser humano. Quero tocar a vida como as pessoas fazem”, conta.

Outra meta importante é reaproximar-se da família. Com a prisão, perdeu o casamento e o convívio diário com a mãe e os três filhos.

“Hoje já consigo visitar minha mãe quase diariamente. Estou tentando recuperar o tempo perdido.”

O doutor preso

Primeiro caso de defesa de doutorado feita por uma pessoa presa no Brasil (Foto: SSP)

Se João se recuperou pelo trabalho manual, Pedro*, 49 anos, está mudando de vida pelos estudos. Em outubro de 2025, ele defendeu on-line, de dentro da Penitenciária Coronel Odenir Guimarães (POG), a tese de doutorado em Cultura Visual pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Foi aprovado. Trata-se do primeiro caso de defesa de doutorado feita por uma pessoa presa no Brasil.

A sessão aconteceu no Colégio Estadual Dona Lourdes Estivalete Teixeira, que funciona dentro do complexo prisional. Pedro cumpre pena em regime fechado desde agosto de 2024 e ainda tem pelo menos quatro anos pela frente.

Quando foi condenado, já havia iniciado o doutorado — que envolve artes visuais, computação e museologia. Pensou em desistir, mas foi incentivado pelos policiais penais.

“Além do apoio material — computador e tempo para estudar —, recebi motivação diária da Polícia Penal. Esse incentivo foi fundamental para que eu não desistisse e para a minha ressocialização”, conta.

Pedro diz que se surpreendeu com o ambiente que encontrou.

“Eu compartilhava a visão comum de que quem comete crime dificilmente se ressocializa. Aqui encontrei oportunidade não só para estudar, mas também para trabalhar, ler e até ensinar.”

“Ressocialização significa voltar ao convívio social e, para isso, aprendi três grandes valores com a Polícia Penal: ordem, disciplina e respeito. A verdadeira ressocialização é a defesa desses valores, que também são os da sociedade”, continua.

Outro ponto que ele destaca é a mudança interna.

“Hoje entendo o sentido pleno da palavra ressocialização. É estar em contato com o outro, mas entendendo que é necessária uma transformação para que esse contato aconteça da forma correta. O sistema penitenciário goiano oferece não apenas o cárcere, mas a oportunidade real de transformação.”

Pedro trabalha na marcenaria da Seção Industrial, onde também estuda. Ele opera e ensina outros detentos a usar uma máquina CNC Router — máquina que corta madeira e outros materiais por comando eletrônico.

“No futuro, imagino criar produtos pedagógicos táteis para pessoas com deficiência visual. Muitas escolas atendem crianças cegas que precisam conhecer formas pelo tato. Poderíamos produzir peças com formas geométricas, representações de pinturas, pessoas e cidades em relevo de madeira. Seria maravilhoso unir minha pesquisa acadêmica ao funcionamento deste equipamento.”

Doutorado inédito

A tese de Pedro, defendida em outubro de 2025 pela UFG, propõe ações de acessibilidade em ambientes museais para pessoas com deficiência, especialmente a visual. Formado em Design Gráfico e mestre em Cultura Visual (ambos pela UFG), ele é o primeiro brasileiro a defender um doutorado estando preso.

Da adolescência ao crime recorrente

José*, 26 anos, conhece o sistema prisional desde a adolescência. Já esteve preso três vezes desde os 16 anos. Na última década, passou mais tempo detido do que em liberdade e praticamente perdeu contato com família e amigos.

Hoje cumpre pena na Penitenciária Coronel Odenir Guimarães. Faltam 1 ano e 8 meses para progredir de regime, mas ele acredita estar vendo uma luz no fim do túnel.

“Quando cheguei aqui, não tinha mais esperança. Achava que minha vida seria para sempre no crime. Nunca tive profissão, mas precisava trabalhar desde cedo. Aos 10 anos estudava de manhã e vendia picolé à tarde para ajudar minha mãe. Depois comecei a andar com pessoas erradas e me perdi”, recorda.

A virada começou em 2021, quando foi selecionado para estudar e trabalhar na Seção Industrial. Fez cursos de serralheria e marcenaria, tornou-se monitor da oficina, concluiu o Ensino Fundamental pelo Encceja e já iniciou o Ensino Médio.

“Cada dia é um aprendizado novo, e estou aprendendo o certo. Produzimos mesas, cadeiras e painéis de altíssima qualidade. Nunca imaginei que tivesse essa capacidade. Bastou uma chance para descobrir que tenho um dom, mas precisei estar preso para conseguir.”

José já faz planos para quando sair.

“Minha mãe está doente e tenho uma filha de 5 anos. Não posso mais fazer as pessoas sofrerem. Quero vê-las sorrindo. Me considero reabilitado. Quando sair, vou ter minha própria marcenaria.”

Amadurecimento dentro das grades

Francisco* completou 18 anos há nove anos. Enquanto muitos amigos corriam atrás de carteira de habilitação, boates e viagens, ele conheceu o Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia.

Preso desde 2016, hoje está na Penitenciária Coronel Odenir Guimarães.

“Tenho ciência de que perdi, talvez, a melhor parte da minha vida”, resume. Mesmo assim, não desistiu. Dentro da prisão descobriu a marcenaria de móveis planejados, concluiu o Ensino Médio e se considera outra pessoa.

“Sou exemplo de que é possível mudar na prisão. Quando entrei, não tinha profissão nem ensino básico completo. Hoje sou marceneiro e vou voltar para minha família.”

Francisco praticamente amadureceu na cadeia.

“Foi necessário ser preso para acabar com a minha cegueira. Hoje consigo ver o que quero da vida. Faltam quatro meses para a liberdade. Vou sair, mostrar o que aprendi e provar — especialmente para quem me deu oportunidade aqui dentro — que é possível mudar. Não vou decepcionar ninguém.”

Reeducandos têm diversas oportunidades de trabalho enquanto cumprem pena (Foto: SSP)